Rio: A destruição da paisagem “por um punhado de dracmas” 

Conta a autora Irene Vallejo, em seu livro “Infinito em um Junco”, que era na Biblioteca de Alexandria o local onde se guardava o sarcófago — todo em ouro — de Alexandre Magno. Relata-se, no entanto, que o rei Ptolomeu X, por não conseguir pagar os custos dos sábios e dos pesquisadores que trabalhavam na famosa Biblioteca, mandou substituir o sarcófago de ouro do famoso conquistador por outro mais barato, de alabastro ou cristal de rocha; fundiu o ouro do sarcófago para pagar, então, as despesas do pessoal.   

Narra a autora que seus conterrâneos, os alexandrinos, “nunca o perdoaram pelo sacrilégio. Por um punhado de dracmas[1] foi assassinado no exílio pouco tempo depois”[2]

Numa cidade como o Rio de Janeiro, cujo maior patrimônio é a sua fenomenal paisagem natural, os governantes permitem conspurcar, obstar, empachar e até destruir este patrimônio com construções altas e, por vezes, contínuas, que constituem verdadeiros muros urbanos na paisagem icônica; e é aí que a história do pensamento pequeno e imediatista de Ptolomeu X se repete.  Só que não com o ouro do sarcófago do famoso guerreiro conquistador sanguinário, mas com o patrimônio natural de todos os citadinos e brasileiros. 

É fato que o dinheiro destas edificações, que conspurcam a paisagem do Rio, é embolsado por uns poucos e é sempre justificado, nos discursos dos governantes, por eles ajudarem a pagar algumas despesas corriqueiras da cidade.  Mas o resultado é que o dinheiro se esvai em alguns meses, e o que fica é o muro e a paisagem pública obstruída, sem ar, sem sol e, sobretudo, sem a beleza. 

No Rio, conhecido como Cidade Maravilhosa, há décadas os seus governantes têm se esmerado em buscar o dinheiro fácil, entregando a sua paisagem como moeda de troca, como o ouro fundido do sarcófago de Alexandre.  Mas os danos desta troca deletéria do patrimônio paisagístico pelo dinheiro passageiro só se revelarão após alguns anos, quando os muros urbanos contínuos se concretizarem, obstruindo os belos horizontes da cidade.   

E é aí que se fiam os governantes, seguros de que, a curto prazo, a população carente e ansiosa muito mais por pão e circo do que pela proteção do futuro estético e paisagístico da cidade, não fará, imediatamente, a conexão entre esta destruição e os responsáveis pelo seu desastre paisagístico. Não saberão ao certo quem foi o responsável por matar a galinha dos ovos de ouro[3]

Talvez, imediatamente, esta conexão não seja feita; mas no correr da história sim.  A longo prazo, os responsáveis são sempre revelados, como foi Ptolomeu X.  Os governantes serão, sim, desvelados e ficarão na história do Rio como responsáveis pela destruição de sua icônica paisagem. 

 

Notas: 

[1] Dracma: moeda grega antiga 

[2] O Infinito em um Junco. A invenção do livro no mundo Antigo.  Irene Vallejo. Ed.Intrínseca. 2022. p.65 

[3] “A Galinha dos Ovos de Ouro” é uma famosa fábula sobre ganância, que narra a história de um fazendeiro que, insatisfeito com um ovo de ouro diário, mata sua galinha na esperança de encontrar um tesouro maior, mas descobre que a perdeu para sempre, ensinando a moral de que “quem tudo quer, tudo perde”. A expressão popular “matar a galinha dos ovos de ouro” se refere a destruir uma fonte de riqueza ou sucesso por ganância (Google) 

Vale a pena conferir: 

O céu do Porto do Rio vendido? Mas ainda tem salvação!, por Sonia Rabello 

Venderam o céu do Porto, por Rogério Daflon (4.12.2017) – Publica (Agência de jornalismo investigativo): 

 

 

 

1 Resultado

  1. Sonia Rabello disse:

    Algumas das obras, empreendimentos e trechos que afetam a paisagem carioca são exemplificados nas imagens do vídeo que acompanha o post e falam por si só. Elas não pretendem esgotar o tema, mas ilustrar apenas alguns entre inúmeros casos que se repetem ano após ano, gestão após gestão. Propositalmente, o texto não se propõe a um parecer técnico ou jurídico, mas a uma reflexão crítica sobre um padrão recorrente de escolhas urbanas e seus efeitos permanentes. A metáfora histórica é recurso de leitura da realidade, não substituto dos fatos que estão, literalmente, à vista.

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