Sem respeito, sem limites: loja de carros em logradouro público, no coração do Patrimônio Mundial no Rio

No início desta semana, os cariocas se surpreenderam com uma nova derrubada de árvores e movimentação de terra para a construção de um prédio comercial, para exposição de carros em pleno jardim paisagístico, no coração da Paisagem Cultural Mundial do Rio.  

Nas redes, todos enviaram fotos, em absoluta perplexidade: não é área tombada do Parque do Flamengo?  Foi licenciada pela Prefeitura? Como? Quando? O IPHAN autorizou? Foram autorizados os cortes de árvores? Por quem? O Comitê Gestor do Patrimônio Mundial do Rio se pronunciou?

A vergonha e a perplexidade são totais. Diante desse cenário, um grupo de Associações de Moradores se movimentou neste final de semana para apurar o que estaria acontecendo. Vejam o que sabemos:

1. O início do processo para licenciamento é de 2024 (proc.EIS-DES-2024/27996)!  Durante o referido ano, e também em 2025, ficou praticamente paralisado, quando então em março de 2026 voltou a andar, aceleradamente, no âmbito da Secretaria Municipal de Urbanismo.  Mas, em julho de 2024, foi atribuído SIGILO ao processo, e TODOS OS DOCUMENTOS estão vedados ao conhecimento do acesso ao público.  Por que seria, se a regra é a publicidade dos atos administrativos?  O que se quer esconder?  Quais as autoridades responsáveis por estes atos?

2. O bem é um logradouro público, um canteiro que separa pistas de rolamento de alta velocidade.  E, por isso, NÃO É LOTE.  Não sendo lote, é insusceptível de construção permanente comercial.  Será que os técnicos e autoridades não sabem disso?

3. Embora não esteja na área tombada federal do Parque do Flamengo, a área pública é continuidade deste bem tombado federal e, portanto, entorno do bem tombado, e de proteção de sua AMBIÊNCIA PAISAGÍSTICA. Terá sido objeto de aprovação pelo IPHAN?  Se não foi, o embargo imediato se impõe.  Se foi, merece revisão dos critérios de aprovação e consulta ao Comitê de Gestão da área Patrimônio Mundial.  Mas, não sabemos se nada disso aconteceu, ou se o licenciamento foi regular, porque alguém quis esconder tudo dos cidadãos, decretando o SIGILO dos dados do processo.

4. Ops!  O Comitê de Gestão do Patrimônio Mundial, de responsabilidade do IPHAN, ainda não voltou a funcionar, depois de mais de três anos de paralisação? Por que será ?

5. A área, objeto da excrescência, é área central – coração, core – da delimitação da Paisagem Cultural Mundial do Rio, razão pela qual a consulta ao Comitê (inexistente) seria fundamental.  Não sabemos nem mesmo se o órgão do Patrimônio Cultural Municipal, denominado, neste caso ironicamente de IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade) foi consultado, e qual foi seu posicionamento, pois, mais uma vez, o processo é SIGILOSO.  Teria o órgão autorizado uma imensa construção, com derrubada de árvores, em canteiro público, na ambiência do Parque do Flamengo, em área core do Patrimônio Mundial, em área integrante de Paisagem Mundial e tombada pelo Município???  Se não autorizou, cabe fazer o embargo da obra, pois nem mesmo a autorização do prefeito substitui sua autorização.

6. Finalmente, e não menos importante, é o uso do instrumento da “permissão de uso”, para licenciar em logradouro público (canteiro ajardinado) a construção permanente de prédio comercial.  A permissão de uso é o meio de autorizar, sem licitação, o uso de bem público em caráter precário.  Neste caso, vê-se que a tipologia da edificação não tem nada de precária, e, como disse, nem mesmo é lote, pois integra uma gleba de área de marinha, de domínio da União, e sob gestão da Prefeitura. É necessário, pois, uma explicação clara e transparente para saber que tipo de manobra jurídica é esta, que permite licenciar edificação comercial no meio de bem de uso comum do povo. Ops, mas o processo é SIGILOSO…

As denúncias da sociedade civil estão sendo encaminhadas, ainda hoje, no IPHAN, no Ministério Público Federal, no IRPH, e no Ministério Público Estadual.  Como disse Stanislaw Ponte Preta, “ou instaura-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos”.  Na Prefeitura, está difícil de saber, com transparência e clareza, o rumo que as coisas públicas, do povo, estão tomando!

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4 Resultados

  1. Luis disse:

    Desrespeito

  2. Vera F Rezende disse:

    A estratégia é atropelar a legislação e, por fim, a cidade com tantas excrescências, que as reações se tornam fracas e inexpressivas. A população não sabe mais se defender e as instituições não a defendem mais.

  3. Maria Helena de Aquino Olivier disse:

    Absurdo! Na contramão de tudo o que se defende sobre preservação ambiental e histórica!

  4. Solange Maria de Freitas Bezerra disse:

    “Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
    E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
    Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
    pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
    de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,
    nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.”
    Bertold Brecht

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