A agonia de um paciente quase terminal

Criado no século XIX, e localizado na Avenida Presidente Vargas, no Centro da cidade, há anos, o Hesfa se depara com a burocracia e a falta de comprometimento governamental.

Objeto de três interesses públicos, o mais antigo hospital de ensino do Rio de Janeiro, o São Francisco de Assis (Hesfa), além de ser uma escola, pois é uma unidade da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio (UFRJ), e uma unidade de Saúde, pertencendo assim à rede pública deste serviço governamental, é tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, logo, integrante do acervo cultural do País. Não obstante todos estes aspectos de relevância coletiva inquestionável, sofre com o abandono.

Apesar disto, o São Francisco vive! Continua prestando serviços médicos e ambulatoriais em ações preventivas e programas de saúde da família, incluindo exames clínicos, serviços de reabilitação, ginecologia primária, pediatria, terapia alternativa – acupuntura, florais e cromoterapia -, acompanhamento para dependentes de álcool e drogas e testagem e aconselhamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) / Aids. A divulgação boca-a-boca dos seus serviços é a principal forma de informação.

Atualmente, o hospital conta com menos de 200 funcionários e uma verba de custeio insuficiente para todas as demandas, sendo parte destinada ao pagamento de funcionários terceirizados. O valor reflete a pouca preocupação das autoridades em relação ao Hesfa.

Abandono

O aspecto do prédio com paredes pichadas, rebocos caindo e janelas quebradas, entre outros, limita os trabalhos desenvolvidos pelo a unidade que já foi exemplo para o estado.

Com cerca de 7 mil metros quadrados de área construída, atualmente, o Hesfa, uma das nove unidades hospitalares da Universidade Federal do Rio (UFRJ), apresenta parte de sua área desativada em virtude das interdições pelas péssimas condições estruturais, incluindo desde rachaduras, tijolos expostos, até a presença de limo e árvores enraizadas nas paredes externas. Em apenas um curto trajeto de um ambulatório a outro, pacientes testemunham o quadro desolador torneado por salas com infiltrações.

Risco e expectativa

O prédio, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), convive com a constante ameaçadora de desabamento. A própria soleira está escorada por estacas de madeira.

Desde 2002, quando o Ministério da Cultura deu autorização para captação de recursos para sua restauração orçada em cerca de R$ 25 milhões – , através do registro n° 022268, do Programa Nacional de Apoio a Cultura (Pronac), instituído pela Lei n° 8.313/91, a “Lei Rouanet”, a expectativa de patrocínio da restauração aumenta o martírio da unidade. Nem mesmo a oferta de benefícios fiscais, possibilitando que empresas e pessoas físicas aproveitem a isenção em até 100% do valor no Imposto de Renda ao se tornarem patrocinadores, tem atraído novos investidores dispostos à recuperação do hospital.

Nova diretoria

Em matéria veiculada pelo Jornal do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal do Rio (Sintufrj), a nova direção do Hesfa, após uma intervenção de quatro anos, tem agora uma direção eleita pela maioria do corpo social e, repleta de projetos, preocupada em reforçar a vocação do hospital voltada para a assistência de baixa complexidade. Segundo o seu novo diretor, o neurocientista Professor José Mauro Braz de Lima, haverá novos investimentos em prevenção e o retorno à normalidade da vida institucional da unidade.

A vice-diretora, professora Maria Catarina da Motta, explicou que a direção investirá na melhoria das condições de trabalho do corpo social, paralelamente às negociações para angariar patrocinadores para a recuperação do prédio. “Compramos computadores, trocamos mesas e cadeiras. Parece não ser muito, mas sinaliza que estamos atentos ao ambiente de trabalho”, ressalta. Quanto à reforma do prédio, Catarina afirmou que todo o processo atravancado por conta das exigências por ele ser tombado está em andamento.

Denúncias e morosidade

Apesar das constantes denúncias feitas, até então, pouco foi feito. Estacas e telas de segurança presentes com o intuito de se evitar acidentes e postos pela Defesa Civil perderam seu caráter provisório inicial, e se tornam, a cada dia, mais integrados (e se desintegrando) ao cenário do Hesfa. Sua área nobre, dotada outrora de grande beleza, cede espaço à insegurança.

Por se tratar de um hospital-escola, a responsabilidade por sua manutenção deveria ser dos Ministérios da Saúde e da Educação. Também o Ministério da Cultura tem o dever de prover recursos para a conservação do prédio público tombado.

Em 2008, a Prefeitura iniciou gestões com o intuito de assinar um convênio com a instituição para a tão sonhada reforma. Em troca o Centro de Saúde Marcolino Candau viria ocupar parte do espaço físico do Hesfa. Entretanto, os projetos não foram adiante. Em entrevista exclusiva ao site SR, o ex-prefeito Cesar Maia afirmou que “a UFRJ queria continuar no local. Para isso, deveria compartilhar custos de investimento. Não quis sair, nem parceria”, disse.

Mais de um século de atividades públicas e sociais

Criado em 1876, quando, na presença da Princesa Isabel foi colocada à pedra fundamental para a construção da hospedaria de mendigos, objetivo para o qual foi criado, após duas décadas, a instituição foi renomeada Asilo São Francisco de Assis. Em 1922, recebeu o nome de Hospital Escola São Francisco de Assis, através de um decreto que também criou a Escola de Enfermagem Anna Nery/ EEAN, contando com o apoio da Fundação Rockfeller/ EUA.

Em 1937 o Hospital Escola São Francisco de Assis foi incorporado ao patrimônio da União e então transferido à UFRJ.

Em 1983 foi tombado pelo Iphan, devido à relevância do seu conjunto arquitetônico de estilo neoclássico. Hoje, a unidade hospitalar desenvolve a maior parte de suas atividades assistenciais no nível de atenção primária e secundária em saúde, e trabalha com equipe multidisciplinar e integrada ao Sistema Único de Saúde no nível municipal.

O quadro de decadência ainda persiste e a degradação sugerida pelas imagens de agonia revelam um prédio abandonado, pelas autoridades, e que pede socorro. Se a unidade ainda se mostra em parte ativa, com seu coração pulsando, todos os créditos devem ser atribuídos à persistência e a dedicação de seus funcionários, alunos, professores e até mesmo pacientes.

A recuperação do Hesfa, o acompanhamento das ações governamentais sobre a unidade e a cobrança de respostas aguardadas há muito tempo, serão prioridades deste site, voltado, entre outros, às matérias de interesse coletivo.

Estamos de olho !

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