“Além do muro”

Neste inspirador texto, Marina Silva escreve sobre os dois carpinteiros que trabalhavam nas obras do Maracanã e pularam o muro do prédio do Museu do Índio, que o governo do Rio quer demolir para construir um estacionamento,  juntando-se aos índios para ajudá-los a resistir contra a demolição.

“No sábado passado, quando a polícia cercou o prédio do Museu do Índio, que o governo do Rio quer demolir para construir um estacionamento, dois carpinteiros que trabalhavam nas obras do Maracanã pularam o muro e juntaram-se aos índios para ajudá-los a resistir contra a demolição.

É claro que foram demitidos depois que voltaram ao trabalho, mas não estavam arrependidos, tinham a tranquilidade de quem agiu de acordo com sua consciência. É uma pena que não vejamos esse apurado senso de justiça na maioria de nossos dirigentes políticos.

Os operários do Rio mostraram, ainda, respeito e carinho pelo patrimônio histórico e pela cultura indígena. Um deles disse que sua família era do interior do Ceará, região em que havia muitos índios, e achava que, assim como o Maracanã, o velho prédio do museu deveria também ser restaurado.

Essa é uma bela lição, que todos devemos aprender. Também é bela a lição que a sociedade e as organizações civis estão dando, ao exigir que os governos estadual e municipal promovam o debate público sobre as obras da Copa do Mundo, de modo que a cidade seja beneficiada, não apenas as empresas que constroem ou que ocuparão os novos espaços.

Uma vitória o movimento já alcançou: a Escola Municipal Friedenreich, considerada uma das melhores da cidade, que também seria demolida, ganhou prazo de ao menos um ano para novas análises e debates sobre seu futuro.

Um debate democrático chegará a soluções mais adequadas, em que a escola, que viabiliza o trânsito de crianças e jovens para um futuro melhor, seja considerada mais importante que melhorar o trânsito dos carros, argumento para a maioria dessas obras.

Afinal, quem perde com a democracia? A vida no dia a dia, a vizinhança no bairro, a educação das crianças, a cultura e a história –tudo o que constitui a qualidade e as referências simbólicas de nossas vidas não precisa ser soterrado por uma visão de cidade que parece descer do espaço. Hipermoderna, mas sem as marcas e relevos da história de sua diversificada formação, a cidade pode tornar-se artificial, como se fosse reservada ao uso exclusivo de alienígenas.

Essas situações acontecem no Rio devido às obras da Copa e da Olimpíada, e, por isso, ganham maior visibilidade. Mas são, também, uma representação do que ocorre cotidianamente em nossas grandes e médias cidades.

Ainda bem que temos uma ação da sociedade para defender seus direitos, com a saudável ideia de que `a cidade é nossa´. Esse movimento nos chama; é hora de pular o muro e ficar do lado dos índios, das comunidades e do esforço para construir cidades onde a sustentabilidade cultural e social na vida não seja atropelada pela pressa dos grandes eventos.”

Marina Silva

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