Cassação de mandato e CPI dos ônibus: o que os une

O que tem em comum a não cassação do mandato do deputado Donadon, condenado por crimes pelo STF, e a manutenção, pela Justiça, da composição dos membros da CPI dos ônibus da Câmara Municipal do Rio?

Eu diria: é o procedimento decisório previsto no Regimento Interno das Casas Legislativas, e que permitem que se tome esta ou aquela decisão tida como indesejável, ilegítima, e que não permite que se identifique os responsáveis por ela.

Foi manchete nos jornais a declaração de deputados federais que, dizendo-se envergonhados com o resultado da votação da não cassação, que não mais colocariam em votação este tipo de decisão pelo voto secreto! Ora, e eles não sabiam que seria o voto secreto, ainda mantido, que protege os malfeitores?  E por que até agora não o eliminaram?

E na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro?

Se passa o mesmo. O Regimento Interno da CMRJ é teratológico, anterior à própria Lei Orgânica do Município, e que foi apenas adaptado a ela por uma comissão em 1996 (art.391).

É esse Regimento Interno que permitiu a forma dada à composição da CPI dos ônibus e de todas as outras anteriormente havidas, e que nunca foi alterado.

Ninguém mexe neste conveniente Regimento Interno. Depois de 1996, ele vem sendo “renovado” pelos chamados “precedentes regimentais”, que interpretam o texto do regimento, muitas vezes o inovando, por competência exclusiva da presidência da Casa. Nada mais autocrático.

Vejam a redação:

Art. 290 – Os casos não previstos neste Regimento Interno serão decididos pelo Presidente, passando as respectivas soluções a constituir Precedentes Regimentais, que orientarão a solução de casos análogos.

Parágrafo único – Também constituirão Precedentes Regimentais as interpretações do Regimento Interno feitas pelo Presidente.”

É o Presidente, só ele, quem decide sua interpretação!

Essa é a lei que temos no parlamento da cidade do Rio de Janeiro, e que não permite que as ilegitimidades sejam alteradas pela Justiça. Esta é a lei interna do parlamento feita, votada e mantida pelos representantes eleitos pelo povo da cidade do Rio de Janeiro. Fazer o quê?

Como então fazer as mudanças necessárias, se as leis que preveem os procedimentos decisórios emperram o processo de mudança?

Concluímos: são os procedimentos decisórios que impedem a mudança política no legislativo. E, não há como mudar os procedimentos decisórios do legislativo sem mudar os que decidem sobre eles.

Então, só em 2014 podemos ter alguma perspectiva de mudar o cenário da qualidade das decisões legislativas no âmbito federal e estadual.

No âmbito municipal teremos que esperar mais um pouco, até 2016. E olhe lá.

Em abril de 2012, durante o meu mandato de vereadora, apresentei projeto de resolução (nº 58/2012), e que tornava obrigatório o voto nominal em todos os projetos de lei, que na sua maioria submetem-se à votação simbólica e sem contagem de quórum. O projeto foi arquivado, já que meu mandato não foi renovado na eleição daquele ano.

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4 Resultados

  1. Manter um deputado, mesmo que condenado pelo STF, é a prova cabal do tipo de moralidade reinante em todos os poderes constituídos, principalmente no Congresso Nacional.
    Se um político, ou um bandido, dá no mesmo, replica a decisão da mais alta Corte Judiciária do país é sinal de que não temos leis, autoridade e tampouco autonomia dos poderes. Cada um faz o que quer…
    Qual será o exemplo ou cobrança que teremos para toda a organização social necessária ao país?
    Reitero a posição de nova Assembleia Nacional Constituinte, com o objetivo de apagar de vez da vida nacional qualquer lembrança sobre a equivocada e maltrapilha colcha de retalhos de 1988.

  2. Nome*Valéria disse:

    Não podem querer mudar a ordem. Querem se favorecer disso para mudar a democracia?! Pra quê a cpi dos ônibus , se não gerar o caos político??? Sinceramente, não acredito mais nas manifestações reais.. não acredito nas intenções da oposição..

  3. Quando ligo a TV e vejo que os réus do mensalão, julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal (Corte Máxima da Nação) continuam apelando e, portanto, soltos como se nada tivesse acontecido, nada mais me surpreenderá, nem mesmo quando a Câmara dos Vereadores do Rio colocou todos q não queriam que a CPI dos ônibus investigasse o q todos já conhecem.
    Na verdade, neste país comandado por ladrões, assassinos e baderneiros nada mais me surpreenderá, nem mesmo a futura substituição da Bandeira Nacional por uma bandeira comunista.

  4. ELISA FONTES disse:

    Assim é tudo mais fácil…..a presidência até ouve…..mas a decisão é dela, certa ou errada. Realmente foi uma pena você não ter conseguido se reeleger. Quem sabe com você lá dentro, seria uma a mais, somando contra esses desmandos que perduram, não se sabe até quando.

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